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segunda-feira, 13 de junho de 2005

Não Agarro a Tua Mão...

Tens a certeza que consegues segurar a minha mão quando me atirar do precipicio e não abrir as asas, apenas para não voar?

O teu sorriso quente deixou-me. Esta queda é continua e continuamente insuportável.
Os teus ouvidos não têm audição para as palavras que sou.

E caio. Vou continuar a cair.
Mas um rebentamento ameaça já, em estrondo, uma explosão, em violência.

Há tanto tempo que os meus pés não sentem um solo seguro. Não notaste, como existem tantos tremores de terra emocionais!?

A minha alma não quer ser vitima, nem carrasco...
Mas encontro-a sempre, ora uma ora outra coisa.

Por isso, perdoa...
Se estenderes a mão e eu não a agarrar.
Perdoa se sentir os teus dedos calidos como lâminas e já não me quiser cortar mais. Perdoa se isto não for aquilo que prometi ou inventei ou menti...
Perdoa quando esquecer que havia uma vida em mim, que queria ser vivida. E quando a esquecer e ignorar e surpreender todos com a realidade da minha morte fisica.

Por vezes há sonhos simples; vidas simples. Por vezes há desejos simples que movem. Mas eu nunca os tive.
Eu não tive nada.
Nenhum ideal a perseguir, nem um amor a guardar.

A vitima e o carrasco devoram-se, deglutem-se mutuamente. Amam-se e odiam-se.
Sorriem de longe.
Quando lhes digo adeus, permanecem imoveis de panico no olhar. Eles vencem mas eu termino a guerra.

Escapo à tua mão. Adeus...
Dizer adeus é aniquilá-los...


by Ar, 5 de Maio, de 2003

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Sem titulo

Quando na sombra não restar o teu nome, nem houver o silêncio rasgado da caneta sobre o papel de tortura, um arco-iris emudecerá ao alvorecer do primeiro momento...

Quando os homens se construirem de imortalidade e engrandecerem os seus corpos com a visão das estrelas que habitam as profundesas dos oceanos, onde os peixes ainda sobreviverão coalhados no sangue antigo...

Quando por baixo das casas se formarem lagos, e na sombra das arvores vier uma nuvem pousar, derramada a esperança de que um dia houve água a beber e boca que bebesse...

Talvez então o passado se recorte do presente e por entre a treva, surja um instante de luz e sonho...

by Ar, 14 de Abril, 05

sábado, 9 de abril de 2005

Tempo Antigo...

Havia: sonhos...
Musicas que paravam o tempo. Roubavam aquela angustia.
Havia: um futuro inteiro...
Um mundo pequeno. Uma força interna capaz de qualquer coisa.
Havia: desejos...
Circulos perfeitos protegendo. E um sorriso prometendo apoio.
Havia: perguntas...
Interrogações desenhadas sobre a pele, dentro do coração. Um curiosidade intensa a pôr um brilho no olhar.
Havia: um passado.
Mas ao qual era possivel escapar. Uma confusão anormal, mas controlavel ainda.
Havia: a pele...
Infantil, ainda macia. E musculos firmes. Cérebros decicicos.
Havia: conversas inuteis...
Prazeres sinceros. Uma inocência já um tanto ou quanto tocada mas ainda presente.
Havia: sentimentos...
Os bons. Na maioria das vezes os bons. E coragem para enfrentar os outros, os maus.
Havia e já não há mais. Ingenuidade, capacidade de acreditar, força para querer viver...

Havia e acabou...


by Ar, 28 de Novembro, 02

quarta-feira, 30 de março de 2005

Ouve-me

Ouve...
Não me posso mover
Há um prego ferrugento, cravado em minha alma, por mãos que não as tuas...
Tão firmemente cravado.

Ouve...
Não me posso mover
Porque em certas alturas esse prego e esse doloroso cravar alastra-se à alma por inteiro e redu-la ao tamanho apertado do peito e deixa-a lá dentro, asfixiando. e então o pé duro da realidade instala-se sobre ele, imponente e avassalador.
Perco movimentos e vontades.

Ouve...
Não me posso mover
Estou estrangulada.
Alguém fez arder no meu cérebro este pensamento de fim, um desejo incontido de inexistencia. Consumo-me.
Esta noite acordei de hora a hora, só para pensar a morte. Abri a janela fumando cigarros, não te pensei, não te queria sequer a meu lado. Esqueci-me e só depois esqueci-te. Apenas ela tomava o meu corpo, o meu espirito obsessivo. Imaginá-la até desistir finalmente.

Ouve...
Não me posso mover
Tremo o temor da morte. Anagramas apenas. Pois treme-me o corpo como o de um drogado privado do que é o seu desejo mais incontido, mais desesperdo.
Esta minha incapacidade de rebeldia contra este habito destrutivo é apenas mais uma destruição que não posso (talvez não queira sequer) evitar.
Enrolo-me em dor sobre a minha própria dor. Neste buraco negro tudo se adensa e avulta.

Ouve...
Não me posso mover
Não tenho sequer um único pensamento sádio. Procuro na carne a punição de todos os erros e desacertos e por momentos o rasgar da lâmina oferece-me uma paz de quietude e silêncio. Momentos rápidos, milésimos de segundos e então respirar é novamente possivel, apenas nesses instantes. E ganho um curto espaço que a dor pode vir a ocupar sem me devorar completamente.

Ouve...
Não me posso mover
Se arriscasse mais que esta imobilidade todos os meus dedos a procurariam, todos os meus movimentos iriam de encontro a essa quietude silênciosa que ela promete.

Ouve...
Não me posso mover
Nem gritar sequer.
Rasgo mentalmente a carne, aproveitando a restea de pensamentos que me permitiria pedir ajuda. Entrego-me silenciosa dos braços da dor e suspiro.
Esta inexistência já nem a mim comove.
Acabo lenta, carrasco de mim própria. É a Morte que chamo.

Tu não ouves...

by, Ar, 30 de Março, 05

Aceitação

Uso palavras.
Não tenho mais nada. Coloco-as umas após outras, procurando uma continuidade que o meu espirito não possui.

Uso palavras.
Quando esse desejo visceral inrompe urgente dos meus pensamentos e nem um único pensamento arrisca a divergencia.
A morte. Noiva eterna e virginal. O carinho gentil das suas mãos frias. O beijo casto dos lábios gélidos nos meus. A morte, minha fiel e tão ausente amante...

Uso palavras.
Sempre que partes Helena e eu que sei amar-te não sei se sinto o teu abandono, tão habituado a este constante perder. A tudo perder.
Já não sinto.
Recebo com a mesma apatia o teu regresso como a tua partida. Acusas-me a frieza e o descaso. Não sabes nem queres saber o que me obrigou a ser indiferente ao que de mau me acontecia. E eu não sabia que erguendo essa barreira defensiva, recusava também a alegria e a felicidade.
Hoje não sei sentir. Aceito apenas que não sinto nada.

Uso palavras...

by Ar, 30 de Março, 05