sexta-feira, 17 de junho de 2005

Prece, Sente a Morte

Vem,
Criança que ainda brincas
Na memoria de sempre.
Tens o brilho livido
E as mãos serenas,
Os teus passos,
Mal os oiço,
Mas sinto-te a proximidade,
Apenas porque estás sempre
Presente.

A cada instante que te penso,
A cada minuto que olho o teu rosto,
Invisivel.
E a prece de que venhas,
Fiel e libertadora,
Move-se por meus lábios
Calados...
Eternamente cerrados.

Vem,
Procuro-te nas arvores
Que atravesso,
Espero o encontro acidental,
Que me refaça
O passado desta existencia.
Peço...

Vem,
Dama de negro,
Senhora misteriosa
De todos os Céus e Infernos,
Ceifa-me a existência,
Como a tua irmã a Vida,
Me ceifou o desejo de existir...

by Ar, 30 de Maio, 05

terça-feira, 14 de junho de 2005

Há Dias (Não Morreste Poeta)

Ontem disseram que tinha morrido o poeta. O poeta!? Mas os poetas não morrem...
Eugénio de Andrade morreu, mas o poeta vive. E para homenagear o homem que pariu o poeta, nada melhor que as palavras entrelaçadas de ambos...


Há Dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.



Eugénio de Andrade (19 de Janeiro de 1923 - 13 de Julho de 2005)
de Os lugares de Lume

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Não Agarro a Tua Mão...

Tens a certeza que consegues segurar a minha mão quando me atirar do precipicio e não abrir as asas, apenas para não voar?

O teu sorriso quente deixou-me. Esta queda é continua e continuamente insuportável.
Os teus ouvidos não têm audição para as palavras que sou.

E caio. Vou continuar a cair.
Mas um rebentamento ameaça já, em estrondo, uma explosão, em violência.

Há tanto tempo que os meus pés não sentem um solo seguro. Não notaste, como existem tantos tremores de terra emocionais!?

A minha alma não quer ser vitima, nem carrasco...
Mas encontro-a sempre, ora uma ora outra coisa.

Por isso, perdoa...
Se estenderes a mão e eu não a agarrar.
Perdoa se sentir os teus dedos calidos como lâminas e já não me quiser cortar mais. Perdoa se isto não for aquilo que prometi ou inventei ou menti...
Perdoa quando esquecer que havia uma vida em mim, que queria ser vivida. E quando a esquecer e ignorar e surpreender todos com a realidade da minha morte fisica.

Por vezes há sonhos simples; vidas simples. Por vezes há desejos simples que movem. Mas eu nunca os tive.
Eu não tive nada.
Nenhum ideal a perseguir, nem um amor a guardar.

A vitima e o carrasco devoram-se, deglutem-se mutuamente. Amam-se e odiam-se.
Sorriem de longe.
Quando lhes digo adeus, permanecem imoveis de panico no olhar. Eles vencem mas eu termino a guerra.

Escapo à tua mão. Adeus...
Dizer adeus é aniquilá-los...


by Ar, 5 de Maio, de 2003

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Insustentabilidade

Letras, palavras, mergulhos
sonhos desfeitos, sem parto
ausencia de constelações.
Na alma a cedencia eterna.
Onde encontra?
Tudo quanto parte
por dentro do ser
fragmentos
estilhaços despedaçados
onde se fere a pele na lentidão.

Insustentabilidade politica do ser
"Deixa, não faz mal..."
que mentira tão grande
uma humanidade atraiçoada
um Cristo desfeito
"Deixa, não faz mal..."

Todos os dias quebro
Todos os dias parto
Todos
Todos os dias falho
Não mais
Um minuto só, uma ilusão.

Morri
Morri instavel, perdurando a vida
Morri de respiro facil e eterno
- Maldito oxigenio vital!
Tudo quebrado tudo desfeito
Tudo amado
Para perdido depois
Disposto em traição sobre a mesa
Recuso
Comer o manjar dos cães
Recuso
Ser o manjar dos cães!

Onde?
Um pequeno espaço
Uma forma util de sombra e murmurio
Onde uma paz!?
Quando desfeita a carne, percebo
Tudo quanto foi real, pereceu
Tudo quanto foi dado, retirado depois
Tudo quanto...


Nada
Miséria apenas
Um mundo cheio
Feito de miséria apenas
Do escarnio das iris
Brilhantes na escuridão do segredo cinico

Que falhe a voz a quem teve coração!
Que falhe a memoria a quem foi alma!
- De certo que merecem...
Ser indecente no principio dos tempos
Ser inconsciente como uma lua mal-humorada
Que faz o mar galgar sobre quem matou.

No fim da noite - melhor fechar os olhos -
É dia já - melhor fechar os olhos -
Derramar lentamente o corpo
Sobre a cova eterna
Mãe...
Terra criadora de todos
Retornar ao Teu ventre
Redescobrir que me amas ainda.

by Ar, 12 de Maio, 05

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Ausência

As mãos agarram a solidão por entre o cigarro.
Devolvesse o fumo de tanta raiva...
Consumisse o fogo do ódio do corpo em vão...
Acham-se os movimentos sem gestos,
A calçada recebe passos
Como a vida pessoas,
Passa-se indelével.

De nós ficará um brilho de estrela
Uma viagem de luz que começa e termina
No mesmo momento.
Fecham-se os olhos...
Encolhem-se os ombros...
Este estado pesa um universo!

Repito o movimentos dos outros
A alma cansa-se em tanto vazio
Deixaram de inventar palavras...
Nada me abraça
Só no meio da noite.
O esquecimento não me leva para longe
Aproxima-se a miséria apenas...
Ainda há gente?

Por fora de mim,
A vida liquida e quente,
O brilho verde do sol nas arvores,
As mãos que se estendem num atar de nós...
Mãos ausentes que não me tocam.
Não toco nada...

by Ar, 21 de Março, 05

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Sem titulo

Quando na sombra não restar o teu nome, nem houver o silêncio rasgado da caneta sobre o papel de tortura, um arco-iris emudecerá ao alvorecer do primeiro momento...

Quando os homens se construirem de imortalidade e engrandecerem os seus corpos com a visão das estrelas que habitam as profundesas dos oceanos, onde os peixes ainda sobreviverão coalhados no sangue antigo...

Quando por baixo das casas se formarem lagos, e na sombra das arvores vier uma nuvem pousar, derramada a esperança de que um dia houve água a beber e boca que bebesse...

Talvez então o passado se recorte do presente e por entre a treva, surja um instante de luz e sonho...

by Ar, 14 de Abril, 05

sábado, 9 de abril de 2005

Tempo Antigo...

Havia: sonhos...
Musicas que paravam o tempo. Roubavam aquela angustia.
Havia: um futuro inteiro...
Um mundo pequeno. Uma força interna capaz de qualquer coisa.
Havia: desejos...
Circulos perfeitos protegendo. E um sorriso prometendo apoio.
Havia: perguntas...
Interrogações desenhadas sobre a pele, dentro do coração. Um curiosidade intensa a pôr um brilho no olhar.
Havia: um passado.
Mas ao qual era possivel escapar. Uma confusão anormal, mas controlavel ainda.
Havia: a pele...
Infantil, ainda macia. E musculos firmes. Cérebros decicicos.
Havia: conversas inuteis...
Prazeres sinceros. Uma inocência já um tanto ou quanto tocada mas ainda presente.
Havia: sentimentos...
Os bons. Na maioria das vezes os bons. E coragem para enfrentar os outros, os maus.
Havia e já não há mais. Ingenuidade, capacidade de acreditar, força para querer viver...

Havia e acabou...


by Ar, 28 de Novembro, 02