Poemas que apetece seguir...
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "Vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "Vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Cantico Negro, de José Régio
segunda-feira, 27 de junho de 2005
domingo, 26 de junho de 2005
Alvorada
Amanhece
Nas arvores de fronte
Pequenos passaros debicam
A imensidão do silêncio
Acompanham-me
Com trinados sentidos.
Lembro-me de ti...
Penso, se neste momento
Olhasses a lua
Estariamos os dois no mesmo quarto
Minguante.
Devolve-me a aurora
E a luz dos teus olhos.
A continuidade
De todos os ciclos da lua.
Deixa-me nascer e
Dar-te à luz
Ainda que reste,
Nestes gestos, sombra,
A infinita escuridão,
Que so a luz pode tragar.
Pouco, eu sei...
Pouco posso dar...
Por isso liberto-te
Abro as mãos -
Tuas asas de passaro...
Desfaço requebrando as promessas,
Para que sejas livre e
Passaro.
Há ainda, no entanto,
Neste amanhecer um sol
Que se erguerá...
by Ar, 26 de Junho, 05
Nas arvores de fronte
Pequenos passaros debicam
A imensidão do silêncio
Acompanham-me
Com trinados sentidos.
Lembro-me de ti...
Penso, se neste momento
Olhasses a lua
Estariamos os dois no mesmo quarto
Minguante.
Devolve-me a aurora
E a luz dos teus olhos.
A continuidade
De todos os ciclos da lua.
Deixa-me nascer e
Dar-te à luz
Ainda que reste,
Nestes gestos, sombra,
A infinita escuridão,
Que so a luz pode tragar.
Pouco, eu sei...
Pouco posso dar...
Por isso liberto-te
Abro as mãos -
Tuas asas de passaro...
Desfaço requebrando as promessas,
Para que sejas livre e
Passaro.
Há ainda, no entanto,
Neste amanhecer um sol
Que se erguerá...
by Ar, 26 de Junho, 05
sexta-feira, 24 de junho de 2005
No Momento
I
Eu não sou isto,
Este reflexo de mim propria.
A sombria mão sobre o pescoço,
Asfixia o lamento e
Transforma todo o corpo em mágoa...
Eu não sou esta lágrima
Que não escorre sobre a pele e
Permanece vaga no olhar que já não me pertence.
A chama estilhaçada pelo vento,
ausente sobre a vela fria.
Em que tempo adormeci?
Regressei para me acordar envelhecida e
Palida, de encontro ao espelho inexistente,
Na visão larga dos meus olhos exteriores
A este nevoeiro...
O reflexo incerto em que não me reflicto
Quem sou neste momento?
Eu não sou este reflexo
Do que sou...
O grito estridente
Deste cansaço.
Deste fracasso, que inaudivel
Me fica na garganta...
II
Calo o que sou.
Olho o refexo na esperança...
Vã, vaga esperança,
De enganar com ele
Isto que sou,
Mais falho ainda,
De maior engano.
Quebrei o espelho, inexistente,
Que ocultava a mentira.
Fragmentei-o,
Dilui-o no sangue dos dedos,
Misturei isto que era
Com o reflexo do que devia ser...
Cubri-o com a minha pele
E dele pouco ficou -
Um rastro...
Eu já não sou o reflexo
Dos anos penhorados
Apenas a nausea verdadeira e legitimas
Destes anos gastos...
by Ar 24 de Junho, 05
Eu não sou isto,
Este reflexo de mim propria.
A sombria mão sobre o pescoço,
Asfixia o lamento e
Transforma todo o corpo em mágoa...
Eu não sou esta lágrima
Que não escorre sobre a pele e
Permanece vaga no olhar que já não me pertence.
A chama estilhaçada pelo vento,
ausente sobre a vela fria.
Em que tempo adormeci?
Regressei para me acordar envelhecida e
Palida, de encontro ao espelho inexistente,
Na visão larga dos meus olhos exteriores
A este nevoeiro...
O reflexo incerto em que não me reflicto
Quem sou neste momento?
Eu não sou este reflexo
Do que sou...
O grito estridente
Deste cansaço.
Deste fracasso, que inaudivel
Me fica na garganta...
II
Calo o que sou.
Olho o refexo na esperança...
Vã, vaga esperança,
De enganar com ele
Isto que sou,
Mais falho ainda,
De maior engano.
Quebrei o espelho, inexistente,
Que ocultava a mentira.
Fragmentei-o,
Dilui-o no sangue dos dedos,
Misturei isto que era
Com o reflexo do que devia ser...
Cubri-o com a minha pele
E dele pouco ficou -
Um rastro...
Eu já não sou o reflexo
Dos anos penhorados
Apenas a nausea verdadeira e legitimas
Destes anos gastos...
by Ar 24 de Junho, 05
domingo, 19 de junho de 2005
Queria...
Queria...
Se deixasses amar-te
E fosses fiel na crença
Do amor...
Não permitiria
As mãos vazias,
Quando penso assim,
Antes de recordar
Que queria amar-te
Se fosse quem tu querias...
by Ar 30 de Maio, 05
Se deixasses amar-te
E fosses fiel na crença
Do amor...
Não permitiria
As mãos vazias,
Quando penso assim,
Antes de recordar
Que queria amar-te
Se fosse quem tu querias...
by Ar 30 de Maio, 05
Ansia de Letra
As letras acalmam-me,
O gesto
Praticado em horror, expectante.
O opium de sangue,
Escarnecendo,
Um vicio velho
Uma salvação ingrata...
Modulo letras...
Vaga tentativa,
Afastar, de mim,
A mão cruel,
Que puxa,
Repuxa os cabelos.
Cedo no tempo
Instantes que não chegam,
Formo frases,
Frenéticas
Formas ansiosas
De encontrar,
Possivel fuga,
Uma possibilidade de fuga...
O meu carrasco ama-me!
Atira-me de encontro arestas
Acutilantes,
De encontro à rasura dos versos.
Pega-me na mão,
Usa-a como caneta
E a alma feita tinta
Espalha-se
Sobre o papel pardo...
Quando olho,
A alma gastou-se,
O tempo tragou o papel.
Feita em pedaços,
A vida quebrou-se,
Estilhaçada,
Dolorosa, corroeu quem a continha.
Nos caixões
Morada de corpos despidos
De alma
De corpos envolucro
Vazios de animo.
Já não se amortalham, os mortos,
Moram nos caixões...
Hoje,
Uso ainda viva
A mortalha do meu corpo morto.
Esta forma exangue
De alma embrutecida,
Extinta
Pelo inverno que chegou e
Apagou a chama.
by Ar, 30 de Maio, 05
O gesto
Praticado em horror, expectante.
O opium de sangue,
Escarnecendo,
Um vicio velho
Uma salvação ingrata...
Modulo letras...
Vaga tentativa,
Afastar, de mim,
A mão cruel,
Que puxa,
Repuxa os cabelos.
Cedo no tempo
Instantes que não chegam,
Formo frases,
Frenéticas
Formas ansiosas
De encontrar,
Possivel fuga,
Uma possibilidade de fuga...
O meu carrasco ama-me!
Atira-me de encontro arestas
Acutilantes,
De encontro à rasura dos versos.
Pega-me na mão,
Usa-a como caneta
E a alma feita tinta
Espalha-se
Sobre o papel pardo...
Quando olho,
A alma gastou-se,
O tempo tragou o papel.
Feita em pedaços,
A vida quebrou-se,
Estilhaçada,
Dolorosa, corroeu quem a continha.
Nos caixões
Morada de corpos despidos
De alma
De corpos envolucro
Vazios de animo.
Já não se amortalham, os mortos,
Moram nos caixões...
Hoje,
Uso ainda viva
A mortalha do meu corpo morto.
Esta forma exangue
De alma embrutecida,
Extinta
Pelo inverno que chegou e
Apagou a chama.
by Ar, 30 de Maio, 05
sábado, 18 de junho de 2005
Por Baixo da Pele, o Anjo...
para Carla, e outros anjos...
Sobre o solo, o anjo abateu-se
Em estrondo e explosão.
As asas esmoreceram,
Fragilizou-se o corpo
Que a alma eterna seguiu.
Quando hoje olham o anjo
Vêm os escombros e os restos,
Vêm o rosto entristecido que abandonou as mãos
E o sorriso vencido pelo desastre da queda
Sem culpa, solitária e triste.
Acusam o anjo, de ser humano e anjo...
Temem a fragilidade de serem humanos
Quando olham o anjo...
Tão facil desviar os olhos do que pode espelhar...
Tão fácil abrir caminho por entre a ilusão.
Mas de baixo da pele de anjo
Ergue-se a vontade de dar brilho às asas e
Estende-las de novo, voar...
Por dentro da carne, outras mãos movem-se lentas, subtieis
Há coragem e força no anjo!
Quando olho o anjo assim abatido,
Percebo-lhe o voo a nascer
Como passos frageis, ensaiados, de criança
E o sorriso de cansaço a substituir-se pelo dos herois,
Que só o sabem ser erguendo-se a si proprios do solo.
by Ar 18 de Julho, 05
Sobre o solo, o anjo abateu-se
Em estrondo e explosão.
As asas esmoreceram,
Fragilizou-se o corpo
Que a alma eterna seguiu.
Quando hoje olham o anjo
Vêm os escombros e os restos,
Vêm o rosto entristecido que abandonou as mãos
E o sorriso vencido pelo desastre da queda
Sem culpa, solitária e triste.
Acusam o anjo, de ser humano e anjo...
Temem a fragilidade de serem humanos
Quando olham o anjo...
Tão facil desviar os olhos do que pode espelhar...
Tão fácil abrir caminho por entre a ilusão.
Mas de baixo da pele de anjo
Ergue-se a vontade de dar brilho às asas e
Estende-las de novo, voar...
Por dentro da carne, outras mãos movem-se lentas, subtieis
Há coragem e força no anjo!
Quando olho o anjo assim abatido,
Percebo-lhe o voo a nascer
Como passos frageis, ensaiados, de criança
E o sorriso de cansaço a substituir-se pelo dos herois,
Que só o sabem ser erguendo-se a si proprios do solo.
by Ar 18 de Julho, 05
sexta-feira, 17 de junho de 2005
Tinta
ao lobo audaz
Por entre brumas,
Esquecer...
A linearidade de todos os caminhos.
Sonhei que vinhas.
Estava acordada
Por baixo da pele,
Acordada
Por baixo de qualquer mascara latente...
Oculto-me dentro da pele que não sou.
Fechar na mão uma vez mais
Esse reconhecer incerto,
A misteriosa vacuidade
Onde sempre revejo a sombra antiga.
O corpo por baixo da pele
É feito de mar e maresia,
Da insubstancia das flores flutuantes,
Da noite encrepusculecida,
A serenidade tranquila de todas as tempestades
E o calar de segredos obscuros,
Murmurios que o tempo não apagará.
Amordaço
No meu corpo
O corpo teu, de quimera.
A pele translucida
Que usas sobre a pele lucida.
Nevoeiro dos meus sonhos,
Penumbra das minhas ilusões abandonadas...
Vem, fazer da noite
Uma suprema eternidade, e da Lua
Um astro estelar, fulminante, que
Encadeie
Até à ausência do tempo.
Luz apenas...
Percorreremos, então,
Os becos e vielas dos corpos
Soltos nas amarras,
Possuidos, no uivo incessante da noite
Acolhedora.
Deixa-te ficar
Na ausencia dos silencios funebres,
Na incapacidade do jogo da tristeza.
Vaga tristeza,
Quando o corpo
Em queda languida
Se abate na lentidão da alma,
No suspiro indefinido
Sem saber acabar...
De mãos na pele
Pequena fronteira que o toque desfaz
Juntos, os dedos
Recuperam a noite,
Reclamam para o corpo unico
As estrelas dos amantes...
Ainda há constelações no céu.
Um murmurio
Roçando a sombra da pele e da carne...
Deixa que olhe,
De olhos fechados ao que rodeia,
Por baixo da pele
Fimbria fronteira,
Quem somos, quem aparentamos...
Debaixo da carne,
Estrutura,
Esqueleto ensurdecedor
Do grito voraz
Pela poeira inolvidavel do mundo.
Deixa que recuse a vida, que
Recupere depois a vida
Um novo mar intranquilo, revolto e
Quente,
Mar de retorno...
Deixa que morra sempre, nos teus abraços
E nos braços
Renascer...
Suave e lenta parte de parte
Eu deixo-te
Crescer por dentro de mim,
Intranquilo delirio,
Apertando-te o corpo em revolução
Nesta miragem...
Que espreite entre os dedos
Cobrindo de memoria o rosto...
Deixa em memoria
A ousadia desta doce loucura,
Penetrar-te o corpo, profana,
Libertar-te apenas quando fosse dia
Nesta noite construida sem tempo...
E ao acordar
Ficarás como brisa nocturna
Aquecendo a nudez dos corpos gastos
Quebrados,
Olhares de indefinidas conversas
Na utopia do tempo, uivante
Ser
Na liberdade traçada a pincel
Com tinta de ilusão.
by Ar, 28 de Maio, 05
Por entre brumas,
Esquecer...
A linearidade de todos os caminhos.
Sonhei que vinhas.
Estava acordada
Por baixo da pele,
Acordada
Por baixo de qualquer mascara latente...
Oculto-me dentro da pele que não sou.
Fechar na mão uma vez mais
Esse reconhecer incerto,
A misteriosa vacuidade
Onde sempre revejo a sombra antiga.
O corpo por baixo da pele
É feito de mar e maresia,
Da insubstancia das flores flutuantes,
Da noite encrepusculecida,
A serenidade tranquila de todas as tempestades
E o calar de segredos obscuros,
Murmurios que o tempo não apagará.
Amordaço
No meu corpo
O corpo teu, de quimera.
A pele translucida
Que usas sobre a pele lucida.
Nevoeiro dos meus sonhos,
Penumbra das minhas ilusões abandonadas...
Vem, fazer da noite
Uma suprema eternidade, e da Lua
Um astro estelar, fulminante, que
Encadeie
Até à ausência do tempo.
Luz apenas...
Percorreremos, então,
Os becos e vielas dos corpos
Soltos nas amarras,
Possuidos, no uivo incessante da noite
Acolhedora.
Deixa-te ficar
Na ausencia dos silencios funebres,
Na incapacidade do jogo da tristeza.
Vaga tristeza,
Quando o corpo
Em queda languida
Se abate na lentidão da alma,
No suspiro indefinido
Sem saber acabar...
De mãos na pele
Pequena fronteira que o toque desfaz
Juntos, os dedos
Recuperam a noite,
Reclamam para o corpo unico
As estrelas dos amantes...
Ainda há constelações no céu.
Um murmurio
Roçando a sombra da pele e da carne...
Deixa que olhe,
De olhos fechados ao que rodeia,
Por baixo da pele
Fimbria fronteira,
Quem somos, quem aparentamos...
Debaixo da carne,
Estrutura,
Esqueleto ensurdecedor
Do grito voraz
Pela poeira inolvidavel do mundo.
Deixa que recuse a vida, que
Recupere depois a vida
Um novo mar intranquilo, revolto e
Quente,
Mar de retorno...
Deixa que morra sempre, nos teus abraços
E nos braços
Renascer...
Suave e lenta parte de parte
Eu deixo-te
Crescer por dentro de mim,
Intranquilo delirio,
Apertando-te o corpo em revolução
Nesta miragem...
Que espreite entre os dedos
Cobrindo de memoria o rosto...
Deixa em memoria
A ousadia desta doce loucura,
Penetrar-te o corpo, profana,
Libertar-te apenas quando fosse dia
Nesta noite construida sem tempo...
E ao acordar
Ficarás como brisa nocturna
Aquecendo a nudez dos corpos gastos
Quebrados,
Olhares de indefinidas conversas
Na utopia do tempo, uivante
Ser
Na liberdade traçada a pincel
Com tinta de ilusão.
by Ar, 28 de Maio, 05
Prece, Sente a Morte
Vem,
Criança que ainda brincas
Na memoria de sempre.
Tens o brilho livido
E as mãos serenas,
Os teus passos,
Mal os oiço,
Mas sinto-te a proximidade,
Apenas porque estás sempre
Presente.
A cada instante que te penso,
A cada minuto que olho o teu rosto,
Invisivel.
E a prece de que venhas,
Fiel e libertadora,
Move-se por meus lábios
Calados...
Eternamente cerrados.
Vem,
Procuro-te nas arvores
Que atravesso,
Espero o encontro acidental,
Que me refaça
O passado desta existencia.
Peço...
Vem,
Dama de negro,
Senhora misteriosa
De todos os Céus e Infernos,
Ceifa-me a existência,
Como a tua irmã a Vida,
Me ceifou o desejo de existir...
by Ar, 30 de Maio, 05
Criança que ainda brincas
Na memoria de sempre.
Tens o brilho livido
E as mãos serenas,
Os teus passos,
Mal os oiço,
Mas sinto-te a proximidade,
Apenas porque estás sempre
Presente.
A cada instante que te penso,
A cada minuto que olho o teu rosto,
Invisivel.
E a prece de que venhas,
Fiel e libertadora,
Move-se por meus lábios
Calados...
Eternamente cerrados.
Vem,
Procuro-te nas arvores
Que atravesso,
Espero o encontro acidental,
Que me refaça
O passado desta existencia.
Peço...
Vem,
Dama de negro,
Senhora misteriosa
De todos os Céus e Infernos,
Ceifa-me a existência,
Como a tua irmã a Vida,
Me ceifou o desejo de existir...
by Ar, 30 de Maio, 05
terça-feira, 14 de junho de 2005
Há Dias (Não Morreste Poeta)
Ontem disseram que tinha morrido o poeta. O poeta!? Mas os poetas não morrem...
Eugénio de Andrade morreu, mas o poeta vive. E para homenagear o homem que pariu o poeta, nada melhor que as palavras entrelaçadas de ambos...
Há Dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade (19 de Janeiro de 1923 - 13 de Julho de 2005)
de Os lugares de Lume
Eugénio de Andrade morreu, mas o poeta vive. E para homenagear o homem que pariu o poeta, nada melhor que as palavras entrelaçadas de ambos...
Há Dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade (19 de Janeiro de 1923 - 13 de Julho de 2005)
de Os lugares de Lume
segunda-feira, 13 de junho de 2005
Não Agarro a Tua Mão...
Tens a certeza que consegues segurar a minha mão quando me atirar do precipicio e não abrir as asas, apenas para não voar?
O teu sorriso quente deixou-me. Esta queda é continua e continuamente insuportável.
Os teus ouvidos não têm audição para as palavras que sou.
E caio. Vou continuar a cair.
Mas um rebentamento ameaça já, em estrondo, uma explosão, em violência.
Há tanto tempo que os meus pés não sentem um solo seguro. Não notaste, como existem tantos tremores de terra emocionais!?
A minha alma não quer ser vitima, nem carrasco...
Mas encontro-a sempre, ora uma ora outra coisa.
Por isso, perdoa...
Se estenderes a mão e eu não a agarrar.
Perdoa se sentir os teus dedos calidos como lâminas e já não me quiser cortar mais. Perdoa se isto não for aquilo que prometi ou inventei ou menti...
Perdoa quando esquecer que havia uma vida em mim, que queria ser vivida. E quando a esquecer e ignorar e surpreender todos com a realidade da minha morte fisica.
Por vezes há sonhos simples; vidas simples. Por vezes há desejos simples que movem. Mas eu nunca os tive.
Eu não tive nada.
Nenhum ideal a perseguir, nem um amor a guardar.
A vitima e o carrasco devoram-se, deglutem-se mutuamente. Amam-se e odiam-se.
Sorriem de longe.
Quando lhes digo adeus, permanecem imoveis de panico no olhar. Eles vencem mas eu termino a guerra.
Escapo à tua mão. Adeus...
Dizer adeus é aniquilá-los...
by Ar, 5 de Maio, de 2003
O teu sorriso quente deixou-me. Esta queda é continua e continuamente insuportável.
Os teus ouvidos não têm audição para as palavras que sou.
E caio. Vou continuar a cair.
Mas um rebentamento ameaça já, em estrondo, uma explosão, em violência.
Há tanto tempo que os meus pés não sentem um solo seguro. Não notaste, como existem tantos tremores de terra emocionais!?
A minha alma não quer ser vitima, nem carrasco...
Mas encontro-a sempre, ora uma ora outra coisa.
Por isso, perdoa...
Se estenderes a mão e eu não a agarrar.
Perdoa se sentir os teus dedos calidos como lâminas e já não me quiser cortar mais. Perdoa se isto não for aquilo que prometi ou inventei ou menti...
Perdoa quando esquecer que havia uma vida em mim, que queria ser vivida. E quando a esquecer e ignorar e surpreender todos com a realidade da minha morte fisica.
Por vezes há sonhos simples; vidas simples. Por vezes há desejos simples que movem. Mas eu nunca os tive.
Eu não tive nada.
Nenhum ideal a perseguir, nem um amor a guardar.
A vitima e o carrasco devoram-se, deglutem-se mutuamente. Amam-se e odiam-se.
Sorriem de longe.
Quando lhes digo adeus, permanecem imoveis de panico no olhar. Eles vencem mas eu termino a guerra.
Escapo à tua mão. Adeus...
Dizer adeus é aniquilá-los...
by Ar, 5 de Maio, de 2003
quinta-feira, 19 de maio de 2005
Insustentabilidade
Letras, palavras, mergulhos
sonhos desfeitos, sem parto
ausencia de constelações.
Na alma a cedencia eterna.
Onde encontra?
Tudo quanto parte
por dentro do ser
fragmentos
estilhaços despedaçados
onde se fere a pele na lentidão.
Insustentabilidade politica do ser
"Deixa, não faz mal..."
que mentira tão grande
uma humanidade atraiçoada
um Cristo desfeito
"Deixa, não faz mal..."
Todos os dias quebro
Todos os dias parto
Todos
Todos os dias falho
Não mais
Um minuto só, uma ilusão.
Morri
Morri instavel, perdurando a vida
Morri de respiro facil e eterno
- Maldito oxigenio vital!
Tudo quebrado tudo desfeito
Tudo amado
Para perdido depois
Disposto em traição sobre a mesa
Recuso
Comer o manjar dos cães
Recuso
Ser o manjar dos cães!
Onde?
Um pequeno espaço
Uma forma util de sombra e murmurio
Onde uma paz!?
Quando desfeita a carne, percebo
Tudo quanto foi real, pereceu
Tudo quanto foi dado, retirado depois
Tudo quanto...
Nada
Miséria apenas
Um mundo cheio
Feito de miséria apenas
Do escarnio das iris
Brilhantes na escuridão do segredo cinico
Que falhe a voz a quem teve coração!
Que falhe a memoria a quem foi alma!
- De certo que merecem...
Ser indecente no principio dos tempos
Ser inconsciente como uma lua mal-humorada
Que faz o mar galgar sobre quem matou.
No fim da noite - melhor fechar os olhos -
É dia já - melhor fechar os olhos -
Derramar lentamente o corpo
Sobre a cova eterna
Mãe...
Terra criadora de todos
Retornar ao Teu ventre
Redescobrir que me amas ainda.
by Ar, 12 de Maio, 05
sonhos desfeitos, sem parto
ausencia de constelações.
Na alma a cedencia eterna.
Onde encontra?
Tudo quanto parte
por dentro do ser
fragmentos
estilhaços despedaçados
onde se fere a pele na lentidão.
Insustentabilidade politica do ser
"Deixa, não faz mal..."
que mentira tão grande
uma humanidade atraiçoada
um Cristo desfeito
"Deixa, não faz mal..."
Todos os dias quebro
Todos os dias parto
Todos
Todos os dias falho
Não mais
Um minuto só, uma ilusão.
Morri
Morri instavel, perdurando a vida
Morri de respiro facil e eterno
- Maldito oxigenio vital!
Tudo quebrado tudo desfeito
Tudo amado
Para perdido depois
Disposto em traição sobre a mesa
Recuso
Comer o manjar dos cães
Recuso
Ser o manjar dos cães!
Onde?
Um pequeno espaço
Uma forma util de sombra e murmurio
Onde uma paz!?
Quando desfeita a carne, percebo
Tudo quanto foi real, pereceu
Tudo quanto foi dado, retirado depois
Tudo quanto...
Nada
Miséria apenas
Um mundo cheio
Feito de miséria apenas
Do escarnio das iris
Brilhantes na escuridão do segredo cinico
Que falhe a voz a quem teve coração!
Que falhe a memoria a quem foi alma!
- De certo que merecem...
Ser indecente no principio dos tempos
Ser inconsciente como uma lua mal-humorada
Que faz o mar galgar sobre quem matou.
No fim da noite - melhor fechar os olhos -
É dia já - melhor fechar os olhos -
Derramar lentamente o corpo
Sobre a cova eterna
Mãe...
Terra criadora de todos
Retornar ao Teu ventre
Redescobrir que me amas ainda.
by Ar, 12 de Maio, 05
sexta-feira, 15 de abril de 2005
Ausência
As mãos agarram a solidão por entre o cigarro.
Devolvesse o fumo de tanta raiva...
Consumisse o fogo do ódio do corpo em vão...
Acham-se os movimentos sem gestos,
A calçada recebe passos
Como a vida pessoas,
Passa-se indelével.
De nós ficará um brilho de estrela
Uma viagem de luz que começa e termina
No mesmo momento.
Fecham-se os olhos...
Encolhem-se os ombros...
Este estado pesa um universo!
Repito o movimentos dos outros
A alma cansa-se em tanto vazio
Deixaram de inventar palavras...
Nada me abraça
Só no meio da noite.
O esquecimento não me leva para longe
Aproxima-se a miséria apenas...
Ainda há gente?
Por fora de mim,
A vida liquida e quente,
O brilho verde do sol nas arvores,
As mãos que se estendem num atar de nós...
Mãos ausentes que não me tocam.
Não toco nada...
by Ar, 21 de Março, 05
Devolvesse o fumo de tanta raiva...
Consumisse o fogo do ódio do corpo em vão...
Acham-se os movimentos sem gestos,
A calçada recebe passos
Como a vida pessoas,
Passa-se indelével.
De nós ficará um brilho de estrela
Uma viagem de luz que começa e termina
No mesmo momento.
Fecham-se os olhos...
Encolhem-se os ombros...
Este estado pesa um universo!
Repito o movimentos dos outros
A alma cansa-se em tanto vazio
Deixaram de inventar palavras...
Nada me abraça
Só no meio da noite.
O esquecimento não me leva para longe
Aproxima-se a miséria apenas...
Ainda há gente?
Por fora de mim,
A vida liquida e quente,
O brilho verde do sol nas arvores,
As mãos que se estendem num atar de nós...
Mãos ausentes que não me tocam.
Não toco nada...
by Ar, 21 de Março, 05
quinta-feira, 14 de abril de 2005
Sem titulo
Quando na sombra não restar o teu nome, nem houver o silêncio rasgado da caneta sobre o papel de tortura, um arco-iris emudecerá ao alvorecer do primeiro momento...
Quando os homens se construirem de imortalidade e engrandecerem os seus corpos com a visão das estrelas que habitam as profundesas dos oceanos, onde os peixes ainda sobreviverão coalhados no sangue antigo...
Quando por baixo das casas se formarem lagos, e na sombra das arvores vier uma nuvem pousar, derramada a esperança de que um dia houve água a beber e boca que bebesse...
Talvez então o passado se recorte do presente e por entre a treva, surja um instante de luz e sonho...
by Ar, 14 de Abril, 05
Quando os homens se construirem de imortalidade e engrandecerem os seus corpos com a visão das estrelas que habitam as profundesas dos oceanos, onde os peixes ainda sobreviverão coalhados no sangue antigo...
Quando por baixo das casas se formarem lagos, e na sombra das arvores vier uma nuvem pousar, derramada a esperança de que um dia houve água a beber e boca que bebesse...
Talvez então o passado se recorte do presente e por entre a treva, surja um instante de luz e sonho...
by Ar, 14 de Abril, 05
sábado, 9 de abril de 2005
Tempo Antigo...
Havia: sonhos...
Musicas que paravam o tempo. Roubavam aquela angustia.
Havia: um futuro inteiro...
Um mundo pequeno. Uma força interna capaz de qualquer coisa.
Havia: desejos...
Circulos perfeitos protegendo. E um sorriso prometendo apoio.
Havia: perguntas...
Interrogações desenhadas sobre a pele, dentro do coração. Um curiosidade intensa a pôr um brilho no olhar.
Havia: um passado.
Mas ao qual era possivel escapar. Uma confusão anormal, mas controlavel ainda.
Havia: a pele...
Infantil, ainda macia. E musculos firmes. Cérebros decicicos.
Havia: conversas inuteis...
Prazeres sinceros. Uma inocência já um tanto ou quanto tocada mas ainda presente.
Havia: sentimentos...
Os bons. Na maioria das vezes os bons. E coragem para enfrentar os outros, os maus.
Havia e já não há mais. Ingenuidade, capacidade de acreditar, força para querer viver...
Havia e acabou...
by Ar, 28 de Novembro, 02
Musicas que paravam o tempo. Roubavam aquela angustia.
Havia: um futuro inteiro...
Um mundo pequeno. Uma força interna capaz de qualquer coisa.
Havia: desejos...
Circulos perfeitos protegendo. E um sorriso prometendo apoio.
Havia: perguntas...
Interrogações desenhadas sobre a pele, dentro do coração. Um curiosidade intensa a pôr um brilho no olhar.
Havia: um passado.
Mas ao qual era possivel escapar. Uma confusão anormal, mas controlavel ainda.
Havia: a pele...
Infantil, ainda macia. E musculos firmes. Cérebros decicicos.
Havia: conversas inuteis...
Prazeres sinceros. Uma inocência já um tanto ou quanto tocada mas ainda presente.
Havia: sentimentos...
Os bons. Na maioria das vezes os bons. E coragem para enfrentar os outros, os maus.
Havia e já não há mais. Ingenuidade, capacidade de acreditar, força para querer viver...
Havia e acabou...
by Ar, 28 de Novembro, 02
sábado, 2 de abril de 2005
Os Amantes...
Sem o ser
Os amantes, são-no...
Vão reflectindo incandescentes luares
Em noites sem lua, conversadas em silêncio.
Quebram-se
Por entre os dedos
Deixam-se
Sabendo-se regressados já.
Por entre a tinta azul
Através do vidro, reflectem
Rios vorazes que mal nascidos
Morrem no mesmo mar...
Por instantes...
Os amantes não o imaginam
Não o sabem sequer
São-no apenas...
by Ar, 01 de Abril, 05
Os amantes, são-no...
Vão reflectindo incandescentes luares
Em noites sem lua, conversadas em silêncio.
Quebram-se
Por entre os dedos
Deixam-se
Sabendo-se regressados já.
Por entre a tinta azul
Através do vidro, reflectem
Rios vorazes que mal nascidos
Morrem no mesmo mar...
Por instantes...
Os amantes não o imaginam
Não o sabem sequer
São-no apenas...
by Ar, 01 de Abril, 05
Deixa Que Fique...
Deixa que fique
Só um segundo
Instante apenas...
Deixa que neste ocaso
Pouse
O corpo despido sobre a tua voz
Enrolando os pensamentos verdes
Debaixo
Do teu céu de azuis e purpuras...
Deixa que trace
Na penumbra do meu olhar
A liquidez de te ver sem as humanas vestes
E as negras pedras da torre hostil
Onde
Trancada, a alma em permanente grito...
Deixa que seja
O grito selvagem, tua
Alvorada,
Até amanhecer...
E deixa...
Depois
Que escondendo o dia
Flutue
Ainda
Pouse
O corpo despido sobre a tua voz...
by Ar, 01 de Abril, 05
Só um segundo
Instante apenas...
Deixa que neste ocaso
Pouse
O corpo despido sobre a tua voz
Enrolando os pensamentos verdes
Debaixo
Do teu céu de azuis e purpuras...
Deixa que trace
Na penumbra do meu olhar
A liquidez de te ver sem as humanas vestes
E as negras pedras da torre hostil
Onde
Trancada, a alma em permanente grito...
Deixa que seja
O grito selvagem, tua
Alvorada,
Até amanhecer...
E deixa...
Depois
Que escondendo o dia
Flutue
Ainda
Pouse
O corpo despido sobre a tua voz...
by Ar, 01 de Abril, 05
sexta-feira, 1 de abril de 2005
Relógio na Sala
O relógio adormecido na sala
Desperta neste vagaroso lamento.
É o tempo cadênciado
Batido no silencio vazio.
Badaladas escoadas
Que me cobrem, imovel
Perduro...
Este tempo não é meu, não me pertence
O meu tempo não passa, não escoa
Aspira apenas...
A quê?
Tão pouco e nem eu sei.
Vive breve na madrugada
De companhia ao cantar do galo.
Tempo lerdo e moroso
Sem ponteiros a acusar
Sem circulos infinitos e claustrofobicos
Nem mostrador, retendo-o em fria redoma...
Tempo mecanico, este que vai batendo sincronizado...
Com o quê?
Morais alheias, odios ancestrais
Tanta coisa externa e interna.
Por isso o meu tempo é disperso
E ao amanhecer recolhe a uma inexistência
(O galo tranquilo debaixo do sol)
Recusando submeter-se aos circulos infindaveis.
Meu é o tempo que é apenas
Oragãnica, sistema biologico,
Encantamento de estar viva.
Não!
Não me deiem por tempo os vossos relógios
Essa mecanica do concreto
Tão má de tragar.
Querem esse tempo?
O sincronismo execravel de estar vivo a horas?
Pois tomem!
Dou-vos o meu.
O que queriam meu!
O tempo dispersa-se
Por entre a neblina
É apenas um olhar, um adeus...
Ergo a mão direita...
Adeus tempo...
by Ar, 24 de Março, 05
Desperta neste vagaroso lamento.
É o tempo cadênciado
Batido no silencio vazio.
Badaladas escoadas
Que me cobrem, imovel
Perduro...
Este tempo não é meu, não me pertence
O meu tempo não passa, não escoa
Aspira apenas...
A quê?
Tão pouco e nem eu sei.
Vive breve na madrugada
De companhia ao cantar do galo.
Tempo lerdo e moroso
Sem ponteiros a acusar
Sem circulos infinitos e claustrofobicos
Nem mostrador, retendo-o em fria redoma...
Tempo mecanico, este que vai batendo sincronizado...
Com o quê?
Morais alheias, odios ancestrais
Tanta coisa externa e interna.
Por isso o meu tempo é disperso
E ao amanhecer recolhe a uma inexistência
(O galo tranquilo debaixo do sol)
Recusando submeter-se aos circulos infindaveis.
Meu é o tempo que é apenas
Oragãnica, sistema biologico,
Encantamento de estar viva.
Não!
Não me deiem por tempo os vossos relógios
Essa mecanica do concreto
Tão má de tragar.
Querem esse tempo?
O sincronismo execravel de estar vivo a horas?
Pois tomem!
Dou-vos o meu.
O que queriam meu!
O tempo dispersa-se
Por entre a neblina
É apenas um olhar, um adeus...
Ergo a mão direita...
Adeus tempo...
by Ar, 24 de Março, 05
quarta-feira, 30 de março de 2005
Ouve-me
Ouve...
Não me posso mover
Há um prego ferrugento, cravado em minha alma, por mãos que não as tuas...
Tão firmemente cravado.
Ouve...
Não me posso mover
Porque em certas alturas esse prego e esse doloroso cravar alastra-se à alma por inteiro e redu-la ao tamanho apertado do peito e deixa-a lá dentro, asfixiando. e então o pé duro da realidade instala-se sobre ele, imponente e avassalador.
Perco movimentos e vontades.
Ouve...
Não me posso mover
Estou estrangulada.
Alguém fez arder no meu cérebro este pensamento de fim, um desejo incontido de inexistencia. Consumo-me.
Esta noite acordei de hora a hora, só para pensar a morte. Abri a janela fumando cigarros, não te pensei, não te queria sequer a meu lado. Esqueci-me e só depois esqueci-te. Apenas ela tomava o meu corpo, o meu espirito obsessivo. Imaginá-la até desistir finalmente.
Ouve...
Não me posso mover
Tremo o temor da morte. Anagramas apenas. Pois treme-me o corpo como o de um drogado privado do que é o seu desejo mais incontido, mais desesperdo.
Esta minha incapacidade de rebeldia contra este habito destrutivo é apenas mais uma destruição que não posso (talvez não queira sequer) evitar.
Enrolo-me em dor sobre a minha própria dor. Neste buraco negro tudo se adensa e avulta.
Ouve...
Não me posso mover
Não tenho sequer um único pensamento sádio. Procuro na carne a punição de todos os erros e desacertos e por momentos o rasgar da lâmina oferece-me uma paz de quietude e silêncio. Momentos rápidos, milésimos de segundos e então respirar é novamente possivel, apenas nesses instantes. E ganho um curto espaço que a dor pode vir a ocupar sem me devorar completamente.
Ouve...
Não me posso mover
Se arriscasse mais que esta imobilidade todos os meus dedos a procurariam, todos os meus movimentos iriam de encontro a essa quietude silênciosa que ela promete.
Ouve...
Não me posso mover
Nem gritar sequer.
Rasgo mentalmente a carne, aproveitando a restea de pensamentos que me permitiria pedir ajuda. Entrego-me silenciosa dos braços da dor e suspiro.
Esta inexistência já nem a mim comove.
Acabo lenta, carrasco de mim própria. É a Morte que chamo.
Tu não ouves...
by, Ar, 30 de Março, 05
Não me posso mover
Há um prego ferrugento, cravado em minha alma, por mãos que não as tuas...
Tão firmemente cravado.
Ouve...
Não me posso mover
Porque em certas alturas esse prego e esse doloroso cravar alastra-se à alma por inteiro e redu-la ao tamanho apertado do peito e deixa-a lá dentro, asfixiando. e então o pé duro da realidade instala-se sobre ele, imponente e avassalador.
Perco movimentos e vontades.
Ouve...
Não me posso mover
Estou estrangulada.
Alguém fez arder no meu cérebro este pensamento de fim, um desejo incontido de inexistencia. Consumo-me.
Esta noite acordei de hora a hora, só para pensar a morte. Abri a janela fumando cigarros, não te pensei, não te queria sequer a meu lado. Esqueci-me e só depois esqueci-te. Apenas ela tomava o meu corpo, o meu espirito obsessivo. Imaginá-la até desistir finalmente.
Ouve...
Não me posso mover
Tremo o temor da morte. Anagramas apenas. Pois treme-me o corpo como o de um drogado privado do que é o seu desejo mais incontido, mais desesperdo.
Esta minha incapacidade de rebeldia contra este habito destrutivo é apenas mais uma destruição que não posso (talvez não queira sequer) evitar.
Enrolo-me em dor sobre a minha própria dor. Neste buraco negro tudo se adensa e avulta.
Ouve...
Não me posso mover
Não tenho sequer um único pensamento sádio. Procuro na carne a punição de todos os erros e desacertos e por momentos o rasgar da lâmina oferece-me uma paz de quietude e silêncio. Momentos rápidos, milésimos de segundos e então respirar é novamente possivel, apenas nesses instantes. E ganho um curto espaço que a dor pode vir a ocupar sem me devorar completamente.
Ouve...
Não me posso mover
Se arriscasse mais que esta imobilidade todos os meus dedos a procurariam, todos os meus movimentos iriam de encontro a essa quietude silênciosa que ela promete.
Ouve...
Não me posso mover
Nem gritar sequer.
Rasgo mentalmente a carne, aproveitando a restea de pensamentos que me permitiria pedir ajuda. Entrego-me silenciosa dos braços da dor e suspiro.
Esta inexistência já nem a mim comove.
Acabo lenta, carrasco de mim própria. É a Morte que chamo.
Tu não ouves...
by, Ar, 30 de Março, 05
Aceitação
Uso palavras.
Não tenho mais nada. Coloco-as umas após outras, procurando uma continuidade que o meu espirito não possui.
Uso palavras.
Quando esse desejo visceral inrompe urgente dos meus pensamentos e nem um único pensamento arrisca a divergencia.
A morte. Noiva eterna e virginal. O carinho gentil das suas mãos frias. O beijo casto dos lábios gélidos nos meus. A morte, minha fiel e tão ausente amante...
Uso palavras.
Sempre que partes Helena e eu que sei amar-te não sei se sinto o teu abandono, tão habituado a este constante perder. A tudo perder.
Já não sinto.
Recebo com a mesma apatia o teu regresso como a tua partida. Acusas-me a frieza e o descaso. Não sabes nem queres saber o que me obrigou a ser indiferente ao que de mau me acontecia. E eu não sabia que erguendo essa barreira defensiva, recusava também a alegria e a felicidade.
Hoje não sei sentir. Aceito apenas que não sinto nada.
Uso palavras...
by Ar, 30 de Março, 05
Não tenho mais nada. Coloco-as umas após outras, procurando uma continuidade que o meu espirito não possui.
Uso palavras.
Quando esse desejo visceral inrompe urgente dos meus pensamentos e nem um único pensamento arrisca a divergencia.
A morte. Noiva eterna e virginal. O carinho gentil das suas mãos frias. O beijo casto dos lábios gélidos nos meus. A morte, minha fiel e tão ausente amante...
Uso palavras.
Sempre que partes Helena e eu que sei amar-te não sei se sinto o teu abandono, tão habituado a este constante perder. A tudo perder.
Já não sinto.
Recebo com a mesma apatia o teu regresso como a tua partida. Acusas-me a frieza e o descaso. Não sabes nem queres saber o que me obrigou a ser indiferente ao que de mau me acontecia. E eu não sabia que erguendo essa barreira defensiva, recusava também a alegria e a felicidade.
Hoje não sei sentir. Aceito apenas que não sinto nada.
Uso palavras...
by Ar, 30 de Março, 05
Só...
Estilhaço o espelho
Soco oco na imagem reflectida
Contra o fogo das lâminas aguçadas.
Atiro o corpo, destrutiva
Carrasca de mim propria e todos os sinais
Assassina da alma
Por entre os escombros férreos.
E agora...
Esta respiração parece-me inutilidade
Esta continuação de pele desprotege-me.
Quero-me por baixo do que me separa da vida
As veias, os tecidos sangrentos e o sangue quente
Simbolos de viada ainda em ser morto!
Conto comprimidos
Deixo-os alinhados sobre a cama
A imagem à mão, no fundo da mente.
O meu pensamento segura a adaga redentora sobre os pulsos.
Abro veias em auência de movimentos.
Tudo quanto me rodeia, fere-me!
A meio da noite quando me acham finjo dormir.
Os sessenta comprimidos letais de Al Berto
são a única ideia que me salva.
Amanhece
Esta noite esquece-se de acabar
Trás-me nocturna com ela
Exilada, abandonada por mim
Atira-me ao ar rodopiante
Afoga-me nas ondas violentas do mar.
Persegue-me
O corpo, os ossos, as visceras
E só então percebo que lhe pertenço...
Luto o escarnio e o ódio.
Estou em revolta
Travo batalhas, imovel.
Se me vires dormir ao anoitecer
Por favor não me acordes...
É longa a batalha quando preenchida de ausência!
by Ar, 29 de Março, 05
Soco oco na imagem reflectida
Contra o fogo das lâminas aguçadas.
Atiro o corpo, destrutiva
Carrasca de mim propria e todos os sinais
Assassina da alma
Por entre os escombros férreos.
E agora...
Esta respiração parece-me inutilidade
Esta continuação de pele desprotege-me.
Quero-me por baixo do que me separa da vida
As veias, os tecidos sangrentos e o sangue quente
Simbolos de viada ainda em ser morto!
Conto comprimidos
Deixo-os alinhados sobre a cama
A imagem à mão, no fundo da mente.
O meu pensamento segura a adaga redentora sobre os pulsos.
Abro veias em auência de movimentos.
Tudo quanto me rodeia, fere-me!
A meio da noite quando me acham finjo dormir.
Os sessenta comprimidos letais de Al Berto
são a única ideia que me salva.
Amanhece
Esta noite esquece-se de acabar
Trás-me nocturna com ela
Exilada, abandonada por mim
Atira-me ao ar rodopiante
Afoga-me nas ondas violentas do mar.
Persegue-me
O corpo, os ossos, as visceras
E só então percebo que lhe pertenço...
Luto o escarnio e o ódio.
Estou em revolta
Travo batalhas, imovel.
Se me vires dormir ao anoitecer
Por favor não me acordes...
É longa a batalha quando preenchida de ausência!
by Ar, 29 de Março, 05
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